Tornês de D. Dinis (MCM 4263)

Nos finais do século XIII, circulavam em Portugal moedas lavradas exclusivamente em bolhão e em ouro. Estas moedas serviam para suprir necessidades económicas diversas: as moedas de valor mais baixo eram usadas nas transações do quotidiano, envolvendo pequenas quantias de dinheiro, enquanto as de valor mais alto eram canalizadas para fins mais específicos, como o pagamento dos exércitos em campanha ou o financiamento de obras públicas e privadas. A documentação produzida nessa época refere com frequência estes dois tipos de moeda, já então conhecidos como “dinheiro” e “morabitino”. Se o primeiro dinheiro fora cunhado no reinado de D. Afonso Henriques (1139-1185), já o primeiro morabitino apenas foi lavrado no reinado de D. Sancho I (1185-1211).

Quando subiu ao trono, em 1279, D. Dinis encetou uma série de medidas com o objetivo de reforçar a autoridade régia e fomentar o desenvolvimento político, jurídico, económico e financeiro do país, cujas fronteiras eram ainda algo instáveis. Para estimular a economia e as finanças, o monarca criou concelhos e feiras, assinou tratados de comércio e tomou também algumas medidas no plano monetário. Entre estas, podemos destacar o lavramento de uma nova espécie de moeda, cujos tipos e letreiros se inspiravam num protótipo francês: o “gros tournois”. A moeda portuguesa passou a ser conhecida como “tornês”, e, à semelhança do seu protótipo, foi produzida num metal que ainda não era utilizado na numária nacional: a prata. Por ser lavrado em prata, o tornês passou a representar um valor intermédio entre o bolhão e o ouro.

Uma das faces do tornês mostra o brasão de armas do reino de Portugal, formado por escudetes postos em cruz e carregados com besantes em aspa. A outra, por sua vez, mostra apenas uma cruz de braços equilaterais. Os letreiros aludem a D. Dinis como rei de Portugal e Algarves (+ DIONISII REGIS PORTUGALIE ET ALGARBI, “[Moeda] de Dinis, rei de Portugal e Algarves”) e encerram uma fórmula apostólica, que simboliza a bênção que Deus concede a todos os que creem n’Ele e que se manifesta através da Santíssima Trindade (+ ADIUTORIUM NOSTRUM IN NOMINE DOMINI / QUI FECIT CELUM ET TERRAM, “O nosso auxílio [está] no nome do Senhor, que fez o céu e a terra”). Na época medieval, esta fórmula era utilizada em cerimónias litúrgicas, como a missa e o ofício divino, e simbolizava outro aspeto relevante: o caráter quase sagrado da autoridade régia, justificado pela especial relação que o monarca procurava manter com Deus e a Igreja.

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