Morabitino de D. Sancho II (MCM 22945)

O morabitino de D. Sancho II é considerado pela generalidade dos numismatas como uma das mais importantes moedas que foram lavradas em Portugal durante a época medieval. A importância desta moeda está relacionada com o facto de se tratar de uma peça única em todo o mundo, facto que prefigura o seu enormíssimo valor histórico e numismático. Com efeito, se sabemos da existência de vários exemplares cunhados durante o reinado de D. Sancho I, a verdade é que o único espécime batido durante o reinado de D. Sancho II que chegou até aos nossos dias é este que se conserva na coleção do Museu Casa da Moeda. Como é evidente, a raridade desta moeda de ouro é exponenciada pelo facto de se tratar de uma peça técnica e esteticamente muito apelativa.

Pese embora este facto, podemos dizer que o morabitino de D. Sancho II é, na sua essência, uma moeda que não mostra um elevado grau de originalidade, se comparada com os morabitinos lavrados por D. Sancho I e D. Afonso II. Os tipos e os letreiros que surgem nas moedas batidas por estes reis tendem a repetir-se, ainda que se registe alguma variação na forma surgem gravados nas faces de cada peça, facto que indicia a utilização de diferentes cunhos. Como se pode notar, o tipo dominante continua a ser, no anverso, a representação dos cinco escudetes postos em cruz e carregados com quatro besantes em aspa, cantonados por uma cruz de braços equilaterais e três estrelas de sete pontas; e, no reverso, a representação do rei montado num cavalo preparado para a guerra, trazendo vários atributos: uma coroa na cabeça, barba longa e corpo revestido por armadura, enquanto segura numa das mãos a espada cujo gume corta uma das letras que surgem na orla.

No tocante aos letreiros, podemos dizer que esta tendência para a repetição se mantém. Os letreiros do morabitino dizem: MONETA DOMINI SANCII / REGIS PORTVGALENSVM (“Moeda do senhor Sancho / rei dos portugueses”). Os letreiros têm caráter autorreferencial, uma vez que a moeda se designa a si própria como “moeda”. Mas este nome é especificado pela ocorrência de um determinante que identifica o nome e os títulos da autoridade responsável pela sua emissão. D. Sancho II surge identificado não só pelo seu nome próprio, mas também pela sua condição de senhor e de rei dos portugueses. À semelhança de um senhor feudal, cujo poder radica nos laços que o unem a outros homens, o rei prefere identificar-se não como “rei de Portugal”, mas sim como “rei dos portugueses.” Numa perspetiva histórica, esta fórmula acabará por cair em desuso e ser substituída pela primeira, a ponto de se tornar um letreiro comum, embora sujeito a variação, em quase todas as moedas que foram produzidas em Portugal até ao fim do período monárquico.

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