Morabitino de D. Sancho I (MCM 4235)

O Museu Casa da Moeda guarda no seu acervo uma peça única pelo seu excecional valor, beleza e raridade: o morabitino de D. Sancho I. Cunhado numa altura em que Portugal e a Cristandade Ibérica viviam num clima de tensão com o Islão, o morabitino mostra a associação entre o brasão de armas do reino e o rei que, sendo também um guerreiro, parte para a frente de combate contra os exércitos infiéis. O brasão é formado pelas cinco quinas postas em cruz e carregadas com besantes em aspa, cantonadas por quatro estrelas de sete pontas. O rei surge como o protótipo iconográfico do guerreiro reconquistador que, montado no seu cavalo, empunha numa das mãos a espada longa e na outra segura o cetro rematado pela cruz. Na cabeça, este rei mostra dois atributos que reforçam toda a sua soberania e virilidade: a coroa e a barba.

Para além destes símbolos, o morabitino de D. Sancho I também contém um letreiro cuja função é exaltar a figura do rei como um homem especialmente abençoado por Deus. Nas suas faces podemos ler a seguinte inscrição: + IN N(omin)E P(a)TRIS (e)T FILII (et) SP(iritu)S S(an)C(t)I A(men) / + SANCIVS REX PORTVGALIS (“+ Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Ámen. + Sancho, rei de Portugal”). Ao invocar o mistério da Santíssima Trindade, esta fórmula recorda que D. Sancho I é rei de Portugal pela graça que lhe foi concedida pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por outro lado, D. Sancho I é identificado pelo nome próprio e pelo título régio, elementos que surgem na face da moeda que contém a representação equestre. Como é evidente, esta associação parece querer indicar que, na moeda medieval portuguesa, os tipos e os letreiros formam uma verdadeira “unidade de sentido”.

Ao longo do seu reinado, D. Sancho I dedicou-se com especial afinco à reforma política, administrativa e económica do reino e chegou até a impulsionar o (re)povoamento de várias vilas, cidades e regiões do país, nomeadamente através da concessão de cartas de foral a localidades nas Beiras e em Trás-os-Montes. Um dos factos históricos que marcam o seu curto reinado foi a conquista temporária de Silves aos muçulmanos, em 1189. Com o apoio de uma frota que seguia para as Cruzadas do Oriente, D. Sancho I recuperou para a causa cristã uma das mais importantes cidades do Gharb al-Andalus. Mas esta conquista acabou por ser muito efémera, porque, dois anos depois da tomada, já os muçulmanos, sob a liderança do califa almóada, tinham capturado de novo a cidade e avançado em direção às terras do norte.

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