Morabitino de D. Afonso II (MCM 4254)

O morabitino de D. Afonso II é uma moeda que tem como protótipo uma peça cunhada durante o reinado de D. Sancho I, rei que ordenou a cunhagem da primeira moeda de ouro em Portugal. Estas peças não são totalmente idênticas, uma vez que existem variações na forma como os tipos e os letreiros estão gravados nas respetivas faces. Como é evidente, estas variações indicam a utilização de cunhos diferentes, sendo esta divergência resultado do facto de as moedas conterem símbolos que aludem ao rei que ordena a cunhagem. Ainda assim, o morabitino de D. Afonso II reproduz um imaginário político e militar que se pode considerar como marca de toda uma época, hoje designada como “Reconquista Cristã”. Nas primeiras décadas do século XIII, época em que esta moeda foi lavrada, Portugal ainda não tinha as suas fronteiras definidas, uma vez que as guerras com o Islão não estavam terminadas.

O anverso deste morabitino mostra um escudo formado por cinco escudetes carregados com quatro besantes em aspa. Estes escudetes surgem cantonados por quatro motivos iconográficos: uma cruz de braços equilaterais e três estrelas de sete pontas. O reverso, por sua vez, mostra a imagem do rei montado num cavalo preparado para a guerra, trazendo uma coroa na cabeça e segurando uma espada longa na mão direita. Embora muito estilizados, estes traços evidenciam a presença de um monarca que se define a si próprio como um guerreiro, pronto para defender os limites do reino e dilatar as fronteiras da fé. A cruz não deixa margem para dúvidas de que esse guerreiro é um de entre os vários protagonistas de um processo que, em Portugal, só terminaria nos meados do século XIII, época em que D. Afonso III ordenaria a tomada das últimas cidades sob domínio islâmico.

Os letreiros têm a particularidade de conterem uma fórmula de caráter autorreferencial escrita em latim: MONETA DOMINI ALFONSI / + REGIS PORTVGALENSIVM (“Moeda do senhor Afonso / + rei dos portugueses”). Dizemos que se trata de uma fórmula de caráter autorreferencial uma vez que a moeda se designa a si própria como “moeda” e identifica o indivíduo responsável pela sua produção: D. Afonso II é designado como “senhor”, mas também como “rei dos portugueses”. Estes títulos são caraterísticos de uma época em que o poder do rei está, pelo menos nalguns aspetos, equiparado ao de um senhor que se une aos seus súbditos através da dependência vassálica. Embora muito sucintos, estes letreiros reproduzem a ideologia que os historiadores associam ao feudalismo, uma forma de organização social e política que reforça os laços entre os homens e estabelece uma ligação hierárquica entre eles.

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