Entre cristãos e muçulmanos: a moeda peninsular nas épocas sueva, visigoda e islâmica

Os suevos e os visigodos, povos que entraram na Península Ibérica nos inícios do século V, durante as chamadas “invasões bárbaras”, também cunharam moeda própria. De início, os suevos, instalados entre a Galécia e a Lusitânia, começaram por imitar algumas moedas romanas, como os sólidos de Honório e os tremisses de Valentiniano III. Durante o reinado de Requiário, foi cunhada na cidade de Braga, que era a capital do reino e a sede de um arcebispado, a primeira moeda de prata com símbolos alusivos a esta monarquia germânica: a siliqua. Embora tenha sido a primeira a ser cunhada por um rei bárbaro em todo o ocidente medieval, esta moeda teve sérias dificuldades em se impor fora das fronteiras do reino, acabando por circular apenas nas áreas que estavam sob a jurisdição do rei suevo. Ainda assim, esta moeda desempenhou um papel muito relevante na legitimação do poder da monarquia, instituição que, nos séculos V e VI, esteve representada por uma série de reis que se consideravam legítimos sucessores dos imperadores romanos convertidos ao cristianismo. 

À semelhança dos suevos, também os visigodos imitaram moedas romanas, fazendo-o em nome dos imperadores do ocidente e do oriente. Durante o reinado de Leovigildo, rei que empreendeu uma reforma monetária que teve grande impacto, foi cunhada a primeira moeda de ouro própria da monarquia visigoda: o tremisse. Os reis que se seguiram tiveram de fazer frente ao processo de degradação da moeda, bem visível na redução do peso ou numa certa perda da qualidade dos cunhos. Apesar disso, esta moeda foi capaz de sobreviver vários séculos, tendo sido substituída por novas espécies apenas quando, nos inícios do século VIII, os muçulmanos entraram na Hispânia. No território atualmente português, por exemplo, houve várias oficinas ativas na época visigoda: na Galécia, Bracara (Braga), Flavas (Chaves), Labrentio (Lavra), Laetera (Ledra), Mandolas (Medas), Pannonias (Panóias), Portocale (Porto) e Vallearitia (Vilariça); e, na Lusitânia, Caliabria (Monte Calabre), Coleia (Coleia), Egitania (Idanha-a-Velha), Elvora (Évora), Eminio (Coimbra), Lameco (Lamego), Monecipio (Covilhã), Olisipona (Lisboa), Totela (?) e Veseo (Viseu).

Nos inícios do século VIII, os exércitos islâmicos entraram na Península Ibérica e deram início ao processo de islamização, arabização e orientalização da sociedade: como consequência, a Hispânia passou a ser conhecida, a partir de então, como al-Andalus. Nos oito séculos seguintes, os governadores, emires e califas que governaram o território, fossem eles de origem árabe ou de origem berbere, começaram a cunhar moeda em seu próprio nome. Uma das suas caraterísticas mais relevantes era o facto de conterem, de início, letreiros em latim e árabe, e, mais tarde, apenas em árabe. Seguindo o preceito islâmico, que, em certas situações, proibia qualquer espécie de representação figurativa, estas moedas não tinham, por norma, quaisquer imagens, à exceção de alguns símbolos patentes nas séries batidas nos inícios do processo de islamização. Por isso, o foco estava direcionado para a mensagem escrita, constituída por letreiros que incluíam não só fórmulas religiosas inspiradas no Alcorão, como a profissão de fé, que proclamava a unicidade de Alá e a missão do profeta Maomé, mas também outros tipos de fórmulas, que identificavam o nome da moeda, o seu local e data de cunhagem e ainda a autoridade responsável pela sua emissão. Na prática, entre os séculos VIII e XV, a moeda transformou-se num meio que ajudou a divulgar três aspetos: uma nova língua, uma nova religião e uma nova cultura.

Ao longo da história islâmica, houve três tipos de moedas: a de ouro (o dinar), a de prata (o dirham) e a de cobre (o fals). Nos séculos XI e XII, época que coincide com o governo dos emires almorávidas, surgiu uma outra moeda de prata (o qirat), e, nos séculos XII e XIII, época que coincide com o governo dos califas almóadas, o dirham passou a ser cunhado em módulo quadrado. Alguns emires e califas omíadas lançaram medidas que visaram controlar o peso e impedir o cerceio das moedas em circulação, uma prática recorrente em situações de crise. Se, de início, as moedas vinham de fora, a verdade é que, a partir de dado momento, também começou a haver cunhagem no al-Andalus, sendo Córdova e Sevilha duas das mais importantes cecas peninsulares. No território hoje português, por exemplo, houve moedas batidas em Shilb (Silves), uma cidade que ainda hoje mostra vestígios associados à presença islâmica, bem como em Yabura (Évora), Baja (Beja) e Martula (Mértola). Por serem muito raras, as peças saídas destas cecas situadas no Gharb al-Andalus, designação por que era conhecida toda a região a ocidente de Sevilha, são procuradas por muitos colecionadores de moedas cunhadas na época medieval.

 

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