Dinheiro de D. Afonso Henriques (MCM 4234)

O dinheiro é uma moeda de bolhão, uma liga metálica feita à base de cobre e prata, que começou a ser cunhada em Portugal pelos meados do século XII e que conhece uma certa longevidade na história da numária nacional.

Devido ao seu reduzido teor em prata e elevado teor em cobre, o dinheiro era, na época medieval, uma moeda de baixo valor, cujas funções estavam por norma associadas à compra de bens ou à aquisição de serviços que implicavam transações sem grande relevância económica. Embora fosse uma moeda muito utilizada neste tipo de situações, o dinheiro era geralmente substituído por outras moedas, batidas em ouro ou em prata, sempre que era necessário assegurar o pagamento de quantias de dinheiro mais relevantes, ainda que o ouro e a prata só tivessem sido verdadeiramente adotados, como metais monetários, a partir de certos reinados.

O dinheiro que hoje apresentamos integra a coleção do Museu Casa da Moeda (MCM 4234) e foi cunhado por D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Esta foi a primeira moeda a ser batida em Portugal após a independência face à Galiza e a Leão, razão pela qual mostra símbolos que apontam para a criação de uma imagética própria, constituída por tipos e letreiros que representam a ideia de soberania. No anverso podemos ver um pentalfa, ou seja, uma estrela com cinco vértices e um ponto ao centro, formando um símbolo já presente nalgumas moedas islâmicas cunhadas pelas taifas almorávidas nos meados do século XII. No reverso podemos ver uma cruz latina com base peraltada, ladeada por duas letras monetárias cuja identificação tem sido alvo de intenso debate. O letreiro desta moeda identifica D. Afonso Henriques como “rei de Portugal”, razão pela qual esta se apresenta como a primeira atestação numismática do nome de um rei e de um título político que, com o passar dos séculos, conhecerá alterações significativas.

Mencionado com frequência em documentos dos séculos XII a XIV, o dinheiro simboliza o processo de formação de um reino que, na opinião de José Mattoso, se foi construindo com base na “oposição” e “composição” de poderes formais e informais. Mais do que representar o país rural e senhorial, onde as trocas eram asseguradas em géneros, o dinheiro é o testemunho de uma sociedade urbana e concelhia, que compreende a função desempenhada pela moeda, a importância de atividades como o comércio e os impactos provocados pela especialização da economia e do trabalho. Para além de se apresentar como unidade de conta e instrumento de troca, o dinheiro também assegurou, na época medieval, um papel relevante na construção de um reino cuja afirmação pressupôs, desde o início, a existência de uma moeda que simbolizasse a autonomia de um país à procura da sua legitimidade.

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