2022, o ano em que começamos a celebrar a obra de Maria Ondina Braga

A obra de Maria Ondina Braga encontra-se desde há muito esgotada no mercado editorial português.  A reedição, pela Imprensa Nacional, dos títulos desta escritora, tão desconhecida quanto original, assume-se como prioritária e perfeitamente enquadrada na missão de salvaguarda patrimonial de que a editora pública está incumbida.  O início da publicação da coleção «Obras Completas de Maria Ondina Braga» é, por isso, uma das grandes apostas da Imprensa Nacional para o ano de 2022. 

Numa parceria com a Câmara Municipal de Braga (cidade natal da escritora) a coleção será coordenada pela professora Isabel Cristina Mateus (Universidade do Minho) e pelo professor  Cândido Oliveira Martins (Universidade Católica Portuguesa), contando na organização dos 7 volumes previstos com nomes como Maria Araújo Silva (Universidade Sorbonne – Paris IV), Claire Williams (Universidade de Oxford – St Peter’s College), Dora Gago (Universidade de Macau) e Maria Graciete Besse (Universidade Sorbonne- Paris IV). 

A publicação da obra completa de Maria Ondina Braga começa com um primeiro volume dedicado a autobiografias ficcionais, que contempla os títulos  Estátua de Sal, Passagem do Cabo e Vidas Vencidas. O volume 2, esperado para o próximo ano, será dedicado a  biografias femininas (Mulheres Escritoras e o inédito Retratos com Sombras). No volume 3 sairão os romances Nocturno em Macau; Angústia em Pequim e a A Personagem; nos volumes 4, 5 e 6 sairão as narrativas breves (A China Fica ao Lado,  Os Rostos de Jano, A Revolta das Palavras, Estação Morta , Amor e Morte, O Homem da Ilha, A Casa Suspensa, Lua de Sangue, A Rosa de JericóA Filha do Juramento, O Jantar Chinês e Quando o Claustro É sem Ninguém (este último, um conto inédito). No sétimo e derradeiro volume está prevista a publicação de correspondências, entrevistas, textos de imprensa e comunicações públicas. 

A fixação dos textos da coleção será realizada a partir da última edição feita em vida de Maria Ondina Braga, tendo também em conta as  várias alterações manuscritas introduzidas em alguns volumes pela escritora e em conformidade com o espólio de Maria Ondina Braga, legado ao Museu Nogueira da Silva, de Braga.

Maria Ondina Braga nasceu em Braga, no seio de uma família culta, em 1932 (a data que a escritora tomou para si própria; há quem afirme que a escritora nasceu dez anos antes, em 1922).  Frequentou a Alliance Francaise, em Paris, e licenciou-se em Literatura Inglesa na Royal Society of Arts, em Londres. Depois disso, foi professora em Angola, Goa, Macau e China. Já radicada em Lisboa, Maria Ondina Braga continuou a ensinar, assinou traduções, colaborou com vários jornais e revistas (A Capital, Diário Popular, entre outros) e dedicou-se à escrita. A sua estreia literária aconteceu em 1949, com o livro de poemas O Meu Sentir, numa edição de autor. Seguiu-se depois, em 1952, Almas e Rimas, também poesia. Na crónica estreia-se  com Eu Vim para Ver a Terra, em 1965. Um ano depois, com  A China Fica ao Lado ganhou o Prémio do concurso de Manuscritos do SNI e em 1970, com Amor e Morte, venceu o  Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa; em 1973 foi-lhe atribuída uma menção honrosa pela Secretaria de Educação e Cultura Brasileira, a propósito do livro Os Rostos de Jano; em 1991 venceu o Prémio Eça de Queirós pelo seu romance Nocturno em Macau; e em 1998, com Vidas Vencidas, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura ITF 2000. 

Maria Ondina Braga faleceu em Braga, a 14 de março de  2003. Quase vinte anos depois da sua morte, e depois de um colossal silêncio editorial, a Imprensa Nacional dará agora a possibilidade a todos para (re)descobrirem a voz de uma grande escritora portuguesa. Uma escritora que teve a coragem, na sua época, de ser cosmopolita, viajante, defensora da condição das mulheres e embaixadora da língua portuguesa mundo fora; que teve a  coragem de sair de um país pequeno e fechado para ir ver o mundo e vir contá-lo.

 

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